de comer (2021)
O trabalho artístico "de comer" (2021) aciona objetos (especificamente as colheres) e modos técnicos de preparo e cozimento, para referenciar as especiarias do oriente – reconhecidamente indicadores e vestígios dos movimentos intercontinentais e consequente modelização e expansão ocidental, a partir dos livros de cozinha portugueses: "Manual de cozinha da infanta D. Maria" (1530-1560), de autor anônimo, "Arte de cozinha" (1693), de Domingos Rodrigues, "Arte nova e curiosa para conserveiros, confeiteiros e copeiros e mais pessoas que se ocupam de fazer doces e conservas com frutas de várias qualidades e outras muitas receitas que pertencem à mesma arte" (1788), de autor anônimo.
Seis caixas de acrílico com especiarias aromáticas endêmicas brasileiras (amburana, cumaru, pacová, pimenta-de-macaco, priprioca, puxuri), e colheres de madeira Tauari evocam uma experiência multissensorial, a partir de uma ambiência local, que se apresenta em oposição aos aromas e sabores descritos nas receitas culinárias portuguesas, enquanto insinuam uma intricada relação político-cultural mobilizadora e de controle dos objetos técnicos.
O embate de narrativas apresenta-se possível ao pensar a resistência enquanto um desvelamento dos sistemas
simbólicos, uma transformação emancipatória, que se materializa na/pela exploração poética. O estranhamento e desconhecimento das formas e dos cheiros apresentados deslocam a familiaridade das especiarias aculturadas e naturalizadas para evocar uma outra paisagem olfativa.


